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“Não é algo material isso que tu és; não pode ser descrito nem por mil palavras, nem com todas as palavras do infinito se conseguiria. Mas eu tentei; eu tentei perceber o que tu és, desvendar esse teu pequeno mistério; e raios se não consegui! Fui a única, disseste tu uma noite, que alguma vez te conseguiu acalmar a meio de uma crise, aquela que te fez ouvir a voz da razão quando tu nunca lhe dás ouvidos; não sei bem o que és na verdade, mas eu encarei-te como o meu “pobre bebé”, o meu cachorrinho abandonado; pelo menos no principio…depois a coisa complicou-se. Deve ter sido o teu cheiro, ou a tua maneira de franzir o nariz sempre que sorris…
Não é algo material isso que tu és, não pode ser. Aposto que és um Deus, não um meu semelhante.”
Voltou a abraçar-me e acariciar-me o cabelo enquanto eu bebia o copo gigante com água.
-Já estiveste em Paris?; disse meio distraída enquanto olhava o frigorífico cheio de pequenos magnetos colados aleatoriamente.
-Não, foi o meu pai e a minha madrasta. Mas adorava lá ir um dia, dizem que é uma cidade fantástica para umas férias a dois.
Vira-me para si e crava nos meus os seus olhos profundos, onde horizontes sem fim se traçam de lés a lés e qualquer marinheiro poderia navegar sem medo de perder o norte.
As pequenas rugas que faz no nariz quando sorri foram das primeiras coisas que no seu rosto me chamou a atenção. Tem os traços muito firmes, muito geometricamente definidos, um queixo cortado um nada saliente. Tem os traços do rosto arquitectonicamente desenhados, excepto aqueles franzidos que faz no nariz quando sorri. Foi das primeiras coisas que reparei porque são as rugazinhas que o humanizam e me lembram que estou a segurar um mero mortal, meu semelhante.
Preparamos omeletas com salada e limonada, como que tentando tornar estas raras experiências o nosso quotidiano. Desafia-me a provar o limão com os dentes, corto meio para o sumo. Seduz-me com a naturalidade com que brinca com a comida que cozinha. Corta pão, frita ovos, junta orégãos para ficar mais picante, é o que diz. Pede-me o iogurte natural da porta do frigorífico, que geme de cada vez que nela força se faça. Continuou a juntar ingredientes surpresa, que mais tarde descobri serem hortelã e gengibre, e passou tudo pela varinha mágica. Eu olhava-o pelo canto do olho, enquanto cortava pepinos em dados e um tomate a meio. Misturamos tudo num prato de serviço fundo e sob as omeletas jorramos o molho de iogurte. Passou um dedo na beira do copo da varinha mágica, tocou-me nos lábios, sujando-os com a pasta que cobre o nosso jantar.
- Provo eu ou provas tu?
De novo aquelas maliciosas rugas espreitando por detrás do seu nariz. O seu bonito rosto firme, a quatro segundos do meu. Agora a três, agora a dois. Avanço mais um pequenino passo do seu corpo alto; o seu lindo rosto firme a um segundo do meu.
- Prova tu.
Trinca-me levemente o lábio inferior. Uma, duas vezes. Saboreia o iogurte com os seus lábios, nos meus. Tremem-me as mãos que seguram o prato de serviço fundo. Afasta-se suavemente da minha boca, encosta a sua geométrica testa na minha.
- Há alguma coisa errada? Exageramos na gengibre?
Toca-me levemente no pulso esquerdo, apressa-se a responder-me:
- Não, não, está tudo certo.
Pelo final do jantar está o prato de serviço vazio e acompanha-o a jarra de sumo de limão com vodca, tenho que admitir. Está agradável a conversa, um pouco apimentada, como o seria de esperar da companhia e do álcool. Sente-se um leve calor, uma ardência no corpo como malaguetas no tempero. Levanta-se com a solenidade de um músico, eleva o meu corpo consigo em gestos rápidos. A louça cai no chão, arrastada por braços esperneando e parte-se silenciosa na carpete da sala. Ouvem-se apenas as nossas respirações pesadas; tem-me nua na mesa. Mergulha o seu bonito rosto firme abaixo do meu queixo, beija-me o pescoço e o peito. Cravei as minhas unhas nas suas costas largas e soltei um uivo de fazer inveja à porta do frigorífico. Nessa noite fiz amor com um Deus como se fizesse disso o meu quotidiano e não houve traço que me lembrasse de que se tratou de um mero mortal, meu semelhante.
day 05 A song that reminds you of someone
até fiquei sem respiração. caramba que as tuas palavras não são gagas!
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