30 de maio de 2010

uma caixinha de sete palmos, duas rosas e as tuas cartas*

Ela seguia sozinha pelas ruas apinhadas de gente, com os braços pendidos num gesto de fadiga; lânguida como uma morta, ténue como uma morta, mais morta que a própria morte.

Esperou por ele, manhãs após manhãs, por tardes infinitas; mas ele não aparecera. E ela ficara ali sentada, na caixinha de madeira; e continuaria a esperar pelos séculos dos séculos, sem nunca se cansar; sem nunca dar ouvidos aos outros que por ela passavam, dizendo que ele nunca voltaria, que o Amor não se encontra porque ele nunca volta. Mas ela cansou-se de esperar; cansou-se de ouvi-los e remou contra a corrente. Alegre, cantarolando bem-me-queres e violetas, viu passar por si todos os que também o buscaram, ao Amor. Viu-os penderem os braços, num gesto de fadiga; lânguidos como mortos, ténues como mortos, mais mortos que a própria morte. Ouviu-os dizer que esse Amor, de que todos falam, não se procura porque ele é que nos encontra e quando parte, nunca volta.

Mas ela foi. Procurou, pelos séculos dos séculos, pela eternidade efémera; até que os também os seus braços começaram a pender, acusando a fadiga; a sua pele tornou-se branca, lânguida como a deles. Tornou-se não mais do que uma sombra ténue, esvaecida; ficou também ela mais morta que a própria morte.

Agora ela vagueia sozinha nas ruas apinhadas de gente, com os braços pendidos num gesto de fadiga; lânguida como uma morta, ténue como uma morta, mais morta que a própria morte. Já não procura o Amor, esse irreverente companheiro; aprendeu que ele não se procura porque quando parte, nunca volta.

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