28 de janeiro de 2011

sometimes we have to stop in order to continue later



estava frio, muito frio. os dentes tiritavam enquanto esfregava as mãos uma na outra. ele é alto, perto do metro e oitenta, diria. o cabelo comprido espreita por debaixo do gorro azul. sorri; sorri porque não há nada que possa estragar aqueles dias de paraíso, nem o frio. os olhos doces dele vageavam por aqui e por além, procuravam-na, de vez em quando; quando parecia que ninguém estava a ver  os olhos dele deliciavam-se nas feições redondas da cara dela, no corpo pequeno e no seu sorriso largo. 
ela tentava parecer indiferente. mas os olhos verdes, incansáveis, procuravam os olhos cor-de-avelã dele, procuravam a boca fina dele, procuravam o corpo esguio que ele tem. os cabelos lisos escorriam-lhe pelos ombros, torrentes de desejo na mente dele. faziam-no lembrar de pequenas fontes de água doce, cheirosa, que o transportam para outras dimensões muito para além do imaginável.
queriam-se mesmo sem se quererem, mesmo sem ninguém saber, mesmo sem eles saberem. quando ele olhava ela estava sempre lá, a dirigir-lhe o seu sorriso quente como o sol no verão e a aquecer-lhe o coração. quando ela dava por si, estava embrenhada no olhar provocador dele, na aura de mistério e desejo que ele emanava.
não diria que é amor o que aqueles dois seres até então desconhecidos sentiam, era mais um misto de paixão e desejo ardente; uma mistura de compreenssão e profunda necessidade de algo que os aquecesse. 
mas os dias passaram, a cumplicidade foi aumentando nos corações deles. já não era desejo mundano que se lia nos olhos dele, nem ponta de compaixão no sorriso dela. agora o amor começava a tomar a sua parte, o seu quê de espaço em cada um deles. 
e as conversas sucediam-se, ele tentava aproximar-se ao máximo, mostrar que queria tanto quanto ela; ela tentava manter a calma porque o tempo e a experiencia já a ensinaram que nem tudo é o que parece e há homens com os quais devemos ter cuidado. mas deixava-se levar lentamente pela fluidez dele e ele pela doçura dela.
mas um desses dias, depois de tudo estar já perfeitamente encaminhado entre as duas almas cumplices, começou a nevar, o calor começou a desaparecer, a neve gelava todo e qualquer resquício da aventura e do desejo que partilharam nos dias anteriores a esse, na noite anterior a essa.
agora ele tenta não a ver, talvez por não querer ceder de novo á tentação dos olhos muito verdes e do sorriso aberto dela. enquanto que ela tenta não chorar, ao mesmo tempo que se culpa por não ter ouvido a sua razão dizer-lhe que ás vezes nem tudo é o que parece e que há homens com os quais precisamos de ter cuidado.

3 comentários:

deixa mensagem depois do sinal "♥"(biiiip)